Friday, 10 February 2017

Os chefes

 

Eu podia escrever o meu currículo por tipos de chefe que já tive. Na minha carreira, tive dois chefes muito bons. Que paravam para explicar, treinar, motivar. Que estavam tão confiantes nas suas próprias capacidades de gerir que confiavam no resultado e, logo, nos empregados. Não olhavam a horas ou pausas de trabalho desde que vissem o trabalho feito, reconheciam o bom trabalho e a quem nem eu, nem ninguém queria desiludir, dado o respeito que lhe tínhamos. Infelizmente foram só dois. O resto não foi tão cor-de-rosa. Senão, vejamos, os diferentes chefes pelos quais passei. 

- o chefe com a mania das grandezas -  este era o chefe que nunca tirava férias. Arranjava sempre desculpas, que este ano tinhamos tido a auditoria, ou o projecto, ou que, pura e simplesmente, era imprescindível para empresa. Quando tirava férias, não largava o Blackberry e respondia a toda a merdinha que recebia, com ou sem importância. Na verdade, este chefe era inseguro. Tinha medo daquilo que se descobrisse na sua ausência e tinha esta necessidade de estar sempre presente para se sentir mais útil do que efectivamente era. Nunca lhe ocorreu que um chefe ou qualquer outro empregado eficiente, não só reconhece a necessidade de uma pausa, de um equilíbrio trabalho/tempos-livres, como deixa as coisas organizadas de modo a que a roda gire durante a sua ausência. Um chefe eficiente, tem a capacidade de delegar e treina suficientemente bem a sua equipa para saber que não o deixarão mal, em caso de emergência.

- o chefe que retira louros ou acusa empregados - tive um chefe que, sempre que algo corria mal, acusava-me. Esquecia-se de me pedir coisas ou quando as fazia ele e não estavam bem, tinha sido eu. Curiosamente, era também o chefe que não me deixava concorrer a outras posições fora do seu departamento, porque precisava mesmo de mim, a altura não era boa, etc, o que mostrava inconsistência nessa história do meu desempenho. Quando algo corria bem e eu fazia ou criava algum melhoramento, reclamava autoria e recolhia os louros. Acho que este é um dos problemas de muitos chefes. Esquecem-se que isto de ser manager acresce responsabilidades, tanto técnicas como de gestão de pessoal. Um bom chefe defende a sua equipa, assume a sua responsabilidade, mas também mostra orgulho na sua capacidade de desencolvimento dos seus empregados, que pode ser vista como fruto do seu trabalho enquanto chefe.

- o chefe micro-gestor - regra geral, este é o chefe que era um excelente analista e se viu promovido a gerir pessoas, de um momento para o outro, sem qualquer preparação para tal. Tem dificuldade em largar o trabalho técnico, porque é tudo o que sabe fazer, logo tem dificuldade em delegar. Precisa de ver cada pormenor e saber tudo o que o empregado faz. A que horas foi à casa de banho, porque esteve tanto tempo ao telefone com a tesouraria, tudo o que dizem os seus e-mails. Pede para ser copiado em tudo, mesmo que isso signifique receber em média 500 e-mails por dia, que lhe retiram tempo de outras responsabilidades que lhe são atribuídas enquanto manager.

- o chefe elitista - este é o chefe que gosta de demarcar a diferença hierárquica. Que prefere almoçar sozinho, na mesa ao lado ou na secretária , a juntar-se à sua equipa. As conversas cingem-se ao mínimo profissional. Para assegurar o seu poder, tem tendência para também olhar para as pausas e horas trabalhadas. Faz-se difícil para aprovar umas férias e gosta de fazer com que o empregado se sinta culpado por ter esse direito.

- o chefe trapalhão - que acha que a única forma de motivar é com dinheiro ou promoção e, por isso, individualmente, faz a mesma promessa a cada empregado. A próxima promoção calha àquele com está a falar na altura, esquecendo-se que nós falamos entre nós. Este chefe, ne sequer quer fazer intriga. Pura e simplesmente não faz puto de ideia do que está a fazer e quando vê o barco a afundar promete agarrar a mão de cada um. Sendo que só tem duas mãos e, se calhar, até queria ter mais. Mesmo que de nada lhe sirvam quando já ninguém acredita nele.

- o chefe psicopata - felizmente, acho que ainda há poucos como este. Este meu chefe só recrutava mulheres, ainda que isso seja ilegal em qualquer país da Europa. Fazia intrigas entre nós. Punha uma a escrever o relatório sobre outra para enviar aos recursos humanos, para a despedir. Marcava reuniões, não aparecia com alguma desculpa esfarrapada, para se fechar na sala ao lado a ouvir-nos. Obrigava-nos a trabalhar na sua casa quando, por algum motivo, não conseguia ir para o escritório, mesmo sabendo que duas de nós, morávamos a 5min a pé do escritório. Num dia, dizia a uma de nós que éramos a maior, que sempre soube o nosso potencial, que estávamos  de parabéns e pardais ao ninho. No dia seguinte, diante de toda a equipa ou de membros de outras equipas, perguntava onde tinha deixado o cérebro, acusava de procrastinação ou dizia que nos pagava demasiado. Uma à vez. Cada semana tinha um target diferente e isto fazia com que a mulherada andasse sempre à batatada com medo que lhe calhasse a ela, naquela semana. Isto divertia-o nas tais reuniões onde se escondia na sala ao lado. 

Infelizmente, um mau chefe consegue destruir todo um ambiente de trabalho e consegue tirar de prazer quando  até se fazia algo que se gosta. Dizem que 80% das pessoas que se despedem e/ou procuram outras oportunidades, fazem-no devido a uma má chefia. Não é dinheiro, não é o tipo de trabalho, não é mais nada, que um mau chefe, o que leva as pessoas a mudar. Cada vez mais as pessoas procuram-me porque querem mudar de trabalho, de carreira ou até criar negócio próprio, simplesmente porque já não aguentam passar o seu dia-a-dia em circunstâncias criadas pela chefia. E isto é muito triste. Perdem-se talentos, ganha-se má fama, perde-se produtividade e, consequentemente, perde-se dinheiro. 

2 comments:

  1. Confesso que não gostei muito do artigo. Assume que a culpa boa ou má é do chefe.
    Na minha teoria, numa organização moderna, as pessoas devem funcionar em rede e não em hierarquia. Hoje em dia, com empregos cada vez mais especializados, o normal é um determinado elemento de uma equipa saber muito mais da sua área de especialização do que o "chefe". Assim, nesta coordenação de esforço de equipa, o "chefe" deverá assumir muito mais a posição de mediador entre as várias inteligências da equipa. Mas para isso é necessário que os elementos se disponham a contribuir ativamente com a sua inteligência para a solução: uma forma de "não perguntes o que o teu projeto pode fazer por ti, mas o que podes fazer pelo projeto". Ainda assim, vejo muito ainda a lógica de "só faço o que o chefe diz para fazer, etc." É um diálogo que tem de funcionar para ambas as partes.

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    1. Percebo o ponto de vista, Sergio e acho que é precisamente aí que reside o problema de muita chefia. Continuam a ver o empregado como subdito e não como colaborador.
      Eu posso falar. Poucos foram os trabalhos em que tive uma formação estruturada.
      Aprendi muito por mim própria e usei sempre os meus próprios recursos, o melhor que pude.
      Sinto que, efectivamente, colaborei para a empresa e não que trabalhei para um chefe.
      Nunca saí sem o trabalho terminado, excepto, ou por falta de autoridade para finalizar um processo ou por ser física e humanamente impossível. Fiz muitas horas. Sempre.
      Ainda assim, tive chefes que sentiam esta necessidade de impor a sua hierarquia. Que se esqueciam que tinha saído na véspera à meia noite, mas não que tinha levado 5 minutos a mais à hora de almoço.
      Chefe é chefe. Também é da sua responsabilidade gerir o pessoal. Entender as suas mais valias, as suas fraquezas e saber ter o máximo potencial da sua equipa gerindo do seu lado. Independentemente do paradigma dessa relação, unilateral ou não, um chefe pode e arruina a vida de muita gente. Esta é das queixas que mais oiço e a razão pela qual escrevi este post.

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